Bastou uma vez, bastou uma lembrança, o véu. Nunca usei, não lembro de usar de verdade. Só lembro dessa vez, igreja Santa Rita, nem era minha igreja de batistmo. O véu. Permaneceu cobrindo minha cabeça. O voile branco com debrum. Eu devia ser muito criancinha e ficou o véu. Nunca mais usei. Mas ele permaneceu cobrindo minha cabeça, feito eu fosse muçulmana. Sempre fui católica, não escolhi ser católica, mas as rezas do catolicismo valeram por mim antes que eu nascesse. Amém.
Não nasci no subúrbio
Publicado 28/11/2011 r Não sei onde isso vai dar... , Uncategorized Deixar um ComentárioFoi num bairro pequeno, de alma singela e céu azul chovido de véspera. Era perto do Centro de São Paulo, espaço que as pessoas chamavam “cidade”. Ir à cidade era pegar um ônibus que rangia muito ao brecar e fazia um som igual à música Una Lacrima Sul Viso do italiano Bobby Solo. Os ônibus eram verde e branco, acho. As sargetas tinham água suja, as ruas eram de paralelepípedos. As casas, uns sobradinhos acanhados de vila. E na igreja, aprendi a usar véu.
Concordei com o o que o corpo pede: 15 minutos de sono em troca de uma tarde de traduções. Fechamos.
Me encanta Violencia Rivas (Peter Capusotto), la cantante argentina pre-punk, autora de pérolas do cancioneiro portenho, como “Mete Te Tu Cariño En El Culo” e “Hoy Mi Vagina Pide Igualdad”.
Às vezes é bom ligar o foda-se. Quem ler não repare. Quem discordar, então, prove. Quem se incomodar, ora, foda-se.
Estou ardendo, chorando, vivendo. E não há letras que bastem pra isso. Minha vida segue esvaindo pequena, perene, constante. E nada contém o sentimento. Calmo, alto, presente. Nada contém, nada.
Prelúdio de Chopin, som punk do século 19. Ou seria bossa nova?
Ontem fui à yoga e a cara professora Márua pediu que mentalizássemos uma chama ardente saindo da região do plexo solar, ali, nas alturas do diafragma. Eu então botei o” intelêcto criativo” (vide Mãe Duchampa) para funcionar e o que surgiu, com uma insistência cínica, foi aquela imagem medonha do mortinho de abdômen costurado nos maços de cigarro. A seguir, minha arejada mente trouxe a imagem de papai recém-falecido, cujo abdômen deve ter fatalmente repousado em uma daquelas macas do IML até que eu conseguisse resgatar seu corpo para ser devidamente sepultado pela família.
Fiz um esforço e visualizei a chama vermelha e cabeluda, como se meu diafragma fosse uma fornalha, apesar da imagem entremear-se às cinzas do morto. E me aquietei pensando que talvez eu estivesse visualizando o luto. E foi bonito notar que o luto é o universo da pessoa que morreu e que também faz parte da gente.
Depois, pensei também que ser punk não é ouvir música dita punk. Nem vestir-se como a indústria da moda diz que é punk, nem ter um temperamento macho, nem endoidecer na noite. Ser punk é não se descabelar com a buraqueira da vida por conta de um antidepressivo receitado pelo médico. Ser punk é enlouquecer com dignidade e organização. Porque a vida é louca.
Depois do último flash back em preto e branco, me divorciei do Pereirão, eita coisa chata!
