Arquivo de outubro \28\UTC 2011

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Dente, cabeça, pé, bolso – tudo bichado. Vela de esconjuro pra São Judas Tadeu, que  hoje é dia dele.

 

Fiapo de manga estilístico

A pressa do Brasil mora em São Paulo, lógico. Ouvindo a Pompéia fazer esse tal de rock’n'roll, lembrei de já ter lido o codinome, a.k.a. cafona, “Liverpool Brasileira”, na falta do que chamar aquilo. É que as coisas efêmeras no Brasil, sobremaneira São Paulo, acontecem na velocidade do Boeing 723897 (pode te levar pra bem longe, bem longe, bem longe, bem longe da poluição) e não há tempo de nomear. Pra tanto, o roquenrrou inventou Arnaldo Antunes.

A Chuva

Vivendo aprendi que algumas pessoas ficam mais marcadas pelas impressões da primeira infância. Hoje, aos 49, certas coisas que vi e senti entre os 3 e 7 anos permanecem ardendo na minha pessoa lá onde Freud perdeu as botas e a vergonha na cara. São fatos que pegam carona na realidade e se transformam conforme a psique infantil: os sonhos com soldados do Vietnã escalando as paredes do meu prédio, a vibração de 68 tomando proporções aterrorizantes de contos de fadas, os clarins, “cachorros mortos nas ruas, policiais vigiando o sol batendo nas frutas, sangrando”, as passeatas, o sexo perigoso das moças namoradas, o perigo, aliás, rondando em cada esquina, e sua cor irresistível de curiosidade. E a chuva, esta mesma que ora cai intermitente.

 

O Instituto de Psiquiatria

Internado no hospital. Lá vou eu em peregrinação diária àquele complexo do HC. Em versão mais light, é verdade, que o Hospital de Psiquiatria fica escondido em uma ilha cercada de verde, com entrada mocozada pela Oscar Freire. Depois de acompanhar minha mãe em 40 dias de internação no Incor, dos quais conto nos dedos os dias em que não fui; e acompanhar papai em seu último passeio por São Paulo, de ambulância do Samu, passeio esse sem volta, em que me despedi dele em uma enfermaria que não sei dizer onde ficava. Recebi ali seus panos rasgados em tentativas vãs de ressucitá-lo. Ultimamente tenho voltado lá diariamente. Para economizar o dinheiro do estacionamento na Oscar Freire, opto por deixar o carro nas redondezas do metro Vila Madalena (ninguém merece o ladeirão que tem entre a minha casa e a estação). Percorro duas estações. Daí ando a pé desde a saída do metrô Clínicas até o predião amarelo do HC pela avenida Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, que centraliza todos os organismos de saúde e morte ligados ao Hospital das Clínicas. Vou reparando nos dramas que se configuram pelo caminho. Gente pedindo dinheiro pra remédio, pra condução. Geralmente velhos ou então mulheres com crianças pequenas, de colo. Não dou, tenho quase certeza de que aquilo é uma indústria. Devia mais era dar, drama é drama. E há também muletas, cadeiras de rodas, tampões, máscaras cirúrgicas. Velhices, ah, como tem velhices de andar precário, meu deus, que pena me dá a solidão deles.  O lugar tem fama, é um dos principais centros de saúde da América Latina, todos vêm com esperança de se curar. Entro no prédio amarelo, que é todo organizado, gente em fila, setas, avisos. Um ar de limpeza, dessas feitas a cada meia hora. Mas a gente percebe que não há limpeza suficiente pra dar conta de tudo aquilo, é muito grande. Pego o elevador e desço em um andar com saída para o Instituto de Psiquiatria. Antes de chegar, há uma caminhada de uns cinco minutos, durante a qual a gente se purifica entre ipês e sibipirunas do clima Ganges do predião amarelo. O Instituto de Psiquiatria “tem nível de Einstein”, como disse uma amiga, se referindo ao hospital paulistano Albert Einstein. Ele está lá, internado para tratamento, vou vê-lo quase todos os dias.

Sinistro

O que leva uma criatura a quebrar a cara de viados na night? E todos querem fogueira para o bobo da corte que ofendeu a rainha. Aliás, onde foi parar a graça desses bobos da corte? A orientação é sempre recusar o teste de bafômetro.

Babando na ficção

Assisto televisão demais da conta, gosto de coisas variadas: ultimamente as estripulias da geração “comédia em pé”, o Pereirão do novelão de lei da Globo, os programas e documentários mais bizarros dos canais Discover e History, os seriados de crime e tribunal que têm que ser americanos, senão não tem graça e, claro, o Dr. House, porque o Hugh Laurie é gato – as tramas de diagnósticos esquisitos já deram pra mim. E também um ou outro filme de arte na tevê Cultura e no Telecine Cult – assisti a toda série do Chaplin apresentada recentemente. E, pela centésima vez, cai do sofá de tanto rir em Tempos Modernos e Em Busca do Ouro. Também assisti à Noviça Rebelde e quase saí trinando com a Julie Andrews. Ah, sim. Por um motivo compreensível, os filmes sobre a perseguição nazista aos pobres judeus durante a Segunda Guerra também me deixam de coração na mão. Tipo: assistindo O Piano e Lista de Schlinder no DVD pela duzentézima vez, tive que pausar porque chorava aos prantos. Já minha fixação pelo terror anda mais calma: faz tempo não fico me espremendo no sofá, escondendo o rosto nas almofadas diante de um bom fantasma japonês ou coreano. Meus campeões de bilheteria: os vampiros em branco e preto com Boris Karlof e Bela Lugosi, que prefiro até ao aterrorizante Nosferatu de Murneau. Por conta de tanta ficção imagética  – aliada ao vício da internet, que me torna uma nerd tardia – minha vista está cada vez pior. E de perto, sem óculos, não enxergo mais nada. Tudo porque adoro esquecer de mim, da realidade que me cerca, para navegar em um mundo de ficção fácil e confortável. Ao menos durante a juventude e a adolescência, quando a tevê não era tão variada e a realidade me parecia mais saborosa (mesmo com as grandes crises condizentes), eu lia. Lia pra burro, talvez pelos motivos errados, mas lia. Mestre Machado, por exemplo, li de cabo-a-rabo entre os doze e os dezesseis porque achava romântico o clima do Segundo Reinado brasileiro, ficava encantada. Da mesma forma, li Guerra e Paz, de Tolstoi. Foi numa edição barata, resumida “para a juventude”, naqueles canastrões anos 70. Pulando as cenas de guerra para acompanhar a saga romântica de Natacha. Mas li, oras. Talvez seja por isso que, apesar de gostar tanto de ficção, criar uma obra consistente na área me seja tão difícil. Sou acostumada com a sensação de conforto que a viagem na ficção me traz. Quando todo mundo sabe que a criação exige só um pouquinho de inspiração e toneladas de trabalho braçal. O que, no ato de escrever, significa quase nenhum esforço físico. Mas um grande corpo-a-corpo cabeçudo consigo próprio, que inclui uma dose cavalar de concentração, além do terrível enfrentamento das próprias inseguranças, desencavando coisas que só Deus sabe. Tudo isso às vezes se traduz em tédio ou, pior, em angustia. Enfim, não é bolinho. Mas é o único jeito honesto de escrever.


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