Prelúdio de Chopin, som punk do século 19. Ou seria bossa nova?
Eu preciso de canções e amigos. De amor, de flores de abrigo. Numa astronave de papel.
Prelúdio de Chopin, som punk do século 19. Ou seria bossa nova?
Ontem fui à yoga e a cara professora Márua pediu que mentalizássemos uma chama ardente saindo da região do plexo solar, ali, nas alturas do diafragma. Eu então botei o” intelêcto criativo” (vide Mãe Duchampa) para funcionar e o que surgiu, com uma insistência cínica, foi aquela imagem medonha do mortinho de abdômen costurado nos maços de cigarro. A seguir, minha arejada mente trouxe a imagem de papai recém-falecido, cujo abdômen deve ter fatalmente repousado em uma daquelas macas do IML até que eu conseguisse resgatar seu corpo para ser devidamente sepultado pela família.
Fiz um esforço e visualizei a chama vermelha e cabeluda, como se meu diafragma fosse uma fornalha, apesar da imagem entremear-se às cinzas do morto. E me aquietei pensando que talvez eu estivesse visualizando o luto. E foi bonito notar que o luto é o universo da pessoa que morreu e que também faz parte da gente.
Depois, pensei também que ser punk não é ouvir música dita punk. Nem vestir-se como a indústria da moda diz que é punk, nem ter um temperamento macho, nem endoidecer na noite. Ser punk é não se descabelar com a buraqueira da vida por conta de um antidepressivo receitado pelo médico. Ser punk é enlouquecer com dignidade e organização. Porque a vida é louca.