Olhos vazados

Eu sei que seus olhos são vazados. Não que os veja, eu sei. E se o pudor deixasse, os representaria com ajuda de uma velha fotografia e um photoshop. Muita coisa mudou desde o seu fim e o meu começo, inclusive essa propriedade de facilmente ver o que apraz. Sinto, apesar do carinho que lhe tenho, eu, que sempre a vi ausente, não quero seus olhos vazados. Não é questão estética, é pudor. Por favor entenda e saiba também: encomendei uma visão. Uma que possa ser vista por olhos vazados. E diz respeito a coisas maravilhosas que não vimos e que nos habitam. Coisas de fechar os olhos e saber em silêncio.

Então ouça: houve um tempo em que as árvores erguiam-se em caules pintados de fungos coloridos para dilatarem as copas nos limites entre a neblina e o sol. E um povo cambriano amendoava os olhos no rés da mata.

Haviam herdado trilhas de animais paleozóicos e nelas passavam boa parte da vida. Caminhavam muito até chegar. O que só acontecia quando um lugar era bom, com água e caça. Então, incendiavam a mata e na clareira que se abria botavam roça. E se o dia estava muito quente, dava gosto ver tribos inteiras folgando na água. Que havia muita água, rios, riachos, lagoas alimentados por ferozes tempestades. Era assim o trivial dos Tupis, posso vê-los caminhando pela avenida Paulista, caçando no Pacaembu, entoando cantos monódicos ao redor de fogueiras, nas noites escuras que nunca existiram em Piratininga. Nem hoje, nem há cinquenta anos, quando você cessou de existir e eu rasguei o ventre de minha mãe. Tupi. Rezo as flautas sagradas que nunca houveram, Tereza. Comunguemos.

Veja, homens apontando suas flechas no parque Siqueira Campos. E famílias inteiras refrescando-se no córrego Pacaembu. Há uma tapera na Consolação, à altura da Nestor Pestana, cuja tribo segue pela Serra do Mar para São Vicente, ainda ontem podiam ser vistos em Paranapiacaba. Nela restou um pajé proscrito, um mestiço. Quase morto de varíola, invocou um anhangá  soprando na flauta sagrada. O som desceu pelo vale do Anhangabaú penetrando a mata. O anhangá acordou com fome e ouviu o sopro monódico da flauta. Revelava o paradeiro da tribo adormecida no sopé da serra, para onde anhangá viajou no lombo da neblina fria. Lá chegando, sorveu as almas, que ficaram encantadas. Ali mesmo, passados uns séculos, anhangá construiu uma oca grande e dura, que cuspia fogo e fumaça colorida. E matava a neblina e os peixes e as nuvens e fazia a alegria da pequena curumim que passava o fim de semana em Santos com a família. Anos depois, já crescida, ela ouviu o choro dos índios sem alma sob a terra e as sirenes das fábricas. Aquilo tinha um apelo tão grande que ela precisou ouvir música. Então, ligou o rádio do carro e se pôs a sonhar.

E assim começou minha história onde a sua parou, Tereza, preciso lhe contar da falta que você fez e de como carreguei sua ausência por todos estes anos.

Editores Legais 2

Agora mesmo mencionei a dois amigos do Facebook que meu primeiro emprego como jornalista foi descolado muito por conta do Caio Fernando de Abreu. Estava pensando se foi uma alegria de ter trabalhado com o Caio por curtos períodos dos anos 80. Foi nada. Foi resistência, prazer, espirituosidade, sacanagem, diversão. Alegria, se é que houve, tinha acontecido em outros tempos. Mergulhávamos de cabeça em uma época soturna, que vinha do amor livre e se precipitava no amor de morte, o mesmo que acabou levando o Caio e o Nelson Pujol, o editor da revista que veio depois do Caio e com quem trabalhei por mais tempo. Tinha também o Antonio Bivar, suave, bonito, educadíssimo, gente finíssima, com o título muito ao gosto da década de “editor de estilo”, que aparecia nas reuniões de pauta e escrevia matérias que eu e a Cida de Assis, secretaria de redação, cobrávamos por telefone e mandávamos o boy de ônibus pra buscar (!), assim como fazíamos com todos os colaboradores, entre eles Tão Gomes Pinto, Ruy Castro, Valter José, Tarso de Castro, os fotógrafos Duran, Bob Wolfenson e muitos outros que, canastronamente, não lembro mais. Depois que Caio saiu continuou a escrever pra revista. Ele, Nelson e Bivar tinham pseudônimos femininos com que exercitavam doida e irresponsavelmente modos e modas da cultura gay, o que muito nos divertia. Não lembro os do Caio e do Bivar, sei que o Nelson escrevia sob o pseudônimo de uma perua (gíria difundida por eles, inclusive em matéria copiosamente escrita pelo Bivar) de sobrenome Vargas. Caio escreveu sobre as Jaciras, bichinhas acontecidas, o subgênero das Japiras (Jaciras japonesas) e por aí vai. Faziam resenhas de discos, livros, cinema, teatro muito bem feitas, atentas e generosas e, ao menos pra mim, eram dandies de fim de século (o vinte) entupidos de cultura, em busca de amor e diversão – principalmente o Caio. O Bivar era mais sossegado. O Nelson tinha recém-chegado de Londres (vcs tem idéia do que isso significava nos posudos anos 80? Não? Pode deixar que um dia escrevo um tratado a respeito), era bonito, gay, tinha namorados perigosos e problemáticos e ria muito de mim porque eu morava na Vila Madalena – “Como você é lhama, Neuza”! Ao mesmo tempo, era de uma seriedade nipônica, elogiava minha escrita dizendo que meus leads eram divinos, enquanto as matérias uns pastiches. E ficava pau da vida quando eu me recusava a aparecer em sábados de fechamento – porque eu ganhava menos que o piso do sindicato. Caio era menos caxias, é claro. Uma vez me pus a falar de Antonioni com ele. Achava que estava com a vida ganha porque era louca por Zabriskie Point e Blow Up. Daí ele me veio com A Noite e eu fiquei com cara de tacho – não dei nem pro começo. Mas o Caio…. No começo dos anos 90, eu tinha acabado de voltar de Londres e o encontrei no Integrão, o macrobiótico que nessa fase ainda era na Rebouças. Estava todo de branco, leve, me cumprimentou, sentou pra conversar – até mencionei que havia estado em Londres e encontrado a Cida de Assis, nossa chapa em comum. Uma semana – se tanto – depois, dei com ele numa manhã estilo ressaca no baixo Augusta, que já era bem baixo nessa época, ele estava todo de preto, óculos escuros, calça de couro. Parei pra cumprimentar e ele passou reto por mim. Uns dias de santa, outros de puta. O Caio era assim. E tinha uma voz grave e macia – deve ter conquistado muita gente com aquela voz que, lendo depois uma bio dele, soube que até os 20 era ridiculamente aguda, o que lhe causava grande embaraço.

Já escrevi sobre o Caio em um blog antigo. Pra não ter que repetir as histórias, colei a seguir. Façam bom proveito!

“January 23, 2006

Editores legais

Hoje achei um texto da Márcia Denser no Desconcertos sobre o Caio Fernando de Abreu e fiquei inspirada. Trabalhei com o Caio por dois curtos períodos nos anos 80, na AZ (o outro nome da Around depois que a revista se desvinculou na boate granfino-paulistana Gallery). Na verdade, ele foi responsável pela minha entrada na revista, que eu bobamente considerava o olimpo do jornalismo, o sonho de glamour que eu queria alcançar. Uma amiga da faculdade me indicou, eu fiz o teste de revisão – e devo ter errado muito porque sempre fui ruim de gramática – e por algum motivo misterioso ele resolveu que estava bom. E assim foi. Eu era uma foca emperdernida, assustadiça, tímida até o osso. À minha volta, as celebridades locais desfilavam pela redação como se ali fosse a casa da mãe Joana. Uau! Eu vivia tonta e inebriada. Na verdade, mais tonta que inebriada, já que ainda estava aprendendo a enfiar o pé na jaca com alguma classe e a esbórnia não chegava nem pro começo. E tonta, tontinha, eu era mesmo, sem o mínimo verniz. Uma deslumbrada. Um dia, sobrei eu e o Caio na hora do almoço. Ele me chamou pra ir no chinês da esquina e eu comi o tempo todo fritando o prato, encabulada por estar almoçando com o editor, um glorioso membro do primeiro staff da Veja em 68 e ainda autor de Morangos Mofados, o best seller de poucos anos antes, quando fiquei sabendo das desditas da geração do “desbunde”. Uma testemunha viva estava almoçando ali na minha frente, com seus modos de príncipe, sua educação dandy, feito uma trombada de Mário de Andrade e Álvares de Azevedo. O Caio bem que tentou, mas eu encabulei feio. Tempos depois, errei no modelo (como diria o Caio na época) e fui trabalhar de gola rulê num tórrido dia de primavera. Pedi pra Joyce Pascowitch uma camiseta com o logo da revista e levei um não na cara, na frente de todo mundo. Caio me salvou: – Faz um top less rápido, Neuza. Joyce ficou com cara de tacho e eu trabalhei o resto do dia na sauna da minha gola rulê, mas morrendo de rir.
Saudades do Caio e de quando ainda havia espírito – e algum humor que ninguém é de ferro – no jornalismo.”

Ela falava disso todo dia

Bastou uma vez, bastou uma lembrança, o véu. Nunca usei, não lembro de usar de verdade. Só lembro dessa vez,  igreja Santa Rita, nem era minha igreja de batistmo. O véu. Permaneceu cobrindo minha cabeça. O voile branco com debrum. Eu devia ser muito criancinha e ficou o véu. Nunca mais usei. Mas ele permaneceu cobrindo minha cabeça, feito eu fosse muçulmana. Sempre fui católica, não escolhi ser católica, mas as rezas do catolicismo valeram por mim antes que eu nascesse. Amém.

Não nasci no subúrbio

Foi num bairro pequeno, de alma singela e céu azul chovido  de véspera.  Era perto do Centro de São Paulo, espaço que as pessoas chamavam “cidade”. Ir à cidade era pegar um ônibus que rangia muito ao brecar e fazia um som igual à música Una Lacrima Sul Viso do italiano Bobby Solo. Os ônibus eram verde e branco, acho. As sargetas tinham água suja, as ruas eram de paralelepípedos. As casas, uns sobradinhos acanhados de vila. E na igreja, aprendi a usar véu.

Negociação

Concordei com o o que o corpo pede: 15 minutos de sono em troca de uma tarde de traduções. Fechamos.

Cositas del Plata

Me encanta Violencia Rivas (Peter Capusotto), la cantante argentina pre-punk, autora de pérolas do cancioneiro portenho, como “Mete Te Tu Cariño En El Culo” e “Hoy Mi Vagina Pide Igualdad”.

Domingas

Logo depois de adotada: ainda não tinha barbinha, nem moicaninho branco.

 

 

Foda-se 2

Às vezes é bom ligar o foda-se. Quem ler não repare. Quem discordar, então, prove. Quem se incomodar, ora, foda-se.

Foda-se

Estou ardendo, chorando, vivendo. E não há letras que bastem pra isso. Minha vida segue esvaindo pequena, perene, constante. E nada contém o sentimento. Calmo, alto, presente. Nada contém, nada.

Música punk

Prelúdio de Chopin, som punk do século 19. Ou seria bossa nova?

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