Esses interiores sutis do seu tempo

vestido-amarelo

De forma que havia sexo, mas era complicado, explodia em furúnculos pelas coxas. Exalava um fedor que nem a pasta de bicarbonato, limão e minâncora de tia Zina dava conta. A vó dava conta desse estado de coisas, mas se limitava a aliviar os sintomas do meu apodrecimento. Sempre prestimosa, ensinava modos de moça catinguenta, com os vestidos pendurados do avesso pra arejar o cecê. Mas se nem vestido eu tinha. Muito menos anágua e saiote, todos esses interiores sutis do seu tempo – sutiã mesmo só fui usar mais tarde, quando arranjei emprego. Era calcinha e olhe lá. Por cima, calça lee, conga e camiseta. A vó ainda arranjou uma costureira que fez um vestido acinturado em piquet branco sem mangas, de decote reto enfeitado com um debrunzinho amarelo. (Só de pensar, Luzia, tenho saudade do que nunca fui, do que nunca vivi). Eu era unissex, veja só. Não tinha postura nem modos, não tinha corpo pra vestido acinturado de piquet. Minha pesada franja ia crescendo sobre o rosto e eu demorava a cortar. Ninguém via meus olhos, ninguém me explicava nada. Eu era uma silvícola saudando o cacique branco na inauguração das obras Transamazônicas. Eu era nada ligando a lugar nenhum, minha alma entocada no Peabiru. Então, como era possível saber que o vestido de piquet era seu? Mas eu sabia sem que ninguém tivesse falado, sem ter lhe conhecido. “Sobrou um pouco de pano, e se eu fizesse um bolerinho? Assim você pode usar na missa”. Como explicar à costureira que eu não ia à missa aos domingos e mesmo se fosse, usaria US Top boca-de-sino e minha densa franja silvícola? Ela tinha costurado um vestido lindo que você usaria em 1960, caso não estivesse ocupada morrendo.  Imagine, a vó e a costureira me vestindo em 1974 como a mocinha que você poderia ter sido, indo à missa em sinuoso piquet branco. Distinta, sim. Bela você nunca seria. Bela foi minha mãe, que cedo aprendeu ser esse seu único patrimônio.Nada, nem o talento ao piano, as tantas valsas de Chopin, nem a banca rigorosa do Conservatório Dramático e Musical. Por si valia as solas furadas e o esforço para esconder os buracos com papelão – mandatório exalar distinção e posse. E se houvesse castidade e uma beleza notável, o casamento se fazia. Assim pude vingar quinze meses após sua morte, dez meses após o casamento. Assim se deram as coisas, à custa de muita luta e algum cálculo, coisa difícil pra quem nasce da alma aquosa da várzea.

Iraci

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Bartolomeu ia pela mata com uma partida de índios e oito homens contratados. Estava nessa lida, farejando ouro de aluvião, margeando um rio a leste, com a intenção de comerciar os índios em Pirapitingui, quando um dos homens chamou atenção para as pedras no leito do rio. Bartolomeu se ajoelhou à margem, aproveitando para beber água fresca e recebeu um golpe de Martim. Este dividiu o ouro entre os camaradas. Juntos, prosseguiram a viagem. E Bartolomeu ficou ali, padecendo forte odor, servindo à fome dos bichos. Como a noite estivesse próxima, acamparam em uma clareira rio acima, cerca de quatro léguas da sepultura de Bartolomeu. Quando escureceu, Martim se deitou com a índia que vinha usando. Iraci se conformava muito quieta. Não moveu uma palha quando viu a sombra no escuro por trás do ombro de Martim. No último segundo Martim sentiu anhangá por trás de si. E enquanto se dava a briga, Iraci teve oportunidade de fugir. Correu pela mata escura com a velocidade emprestada de anhangá, sem ligar de esfolar o corpo nas folhas cortantes. Iraci, nos seus 12 anos, tinha urgência de continuar vivendo. Assim fez, bebendo dos riachos, comendo a mandioca da terra e os peixes que conseguia agarrar enquanto brincava na água.

sucuri

Um dia, viu a cobra grande envindo pro lado de si. Como andasse muito sozinha, deixou. A cobra folgou com Iraci uma tarde inteira. Depois, cansada, foi-se embora, sem ânimo de trincar a menina em seu abraço de morte. Iraci também cansou. O dia terminava e ela deitou nas raízes de um jequitibá, aproveitando a maciez do musgo e das folhas em decomposição. Quando acordou com a manhã já adiantada, demorou a levantar. Mordeu um caju que havia recolhido no dia anterior e sentiu nojo. Então soube que a cobra grande tinha plantado uma semente em seu ventre e que dali viria um filho.

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Salvador

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As cidades têm alma e essa alma acolhe de acordo com vontade própria. Não é fácil ouvi-la, é preciso imaginar, mas não demais. É preciso silêncio, um que realmente transcenda os ruídos e não dependa do cessar de uma britadeira ou uma feira pública. Porque há silêncio numa micareta, num trio elétrico, aí sim é que há o silêncio a que me refiro. Um silêncio que reside além do intervalo entre sons. Um silêncio além da ausência. Salvador.

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ONÇA

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Uma irritação de bicho mouco tomava você conforme o falatório do grupo. Procurava restar quieta, entre os últimos e menos afirmativos, porque adiante estavam os piadistas de padaria. E na retaguarda, se atrasasse demais, vinha Gazela, toda submissão, numa sentinela mais irritante ainda. Até o riacho. O barulhinho d´água quase encoberto pelo vozario. Você se desocupou de ficar brava, curiosa pelo odor que empestava o ar: era onça, garantiu Urubu rei, chefe da tropa. Por certo muitos bichos bebiam ali. Mas o cheiro era de gato safado que marca território em almofada de sofá. Agradava você o fato de onça ser bicho safo, silente. Quando urrava, era com motivo: rival, caça, defesa. E não pra contar piada de padaria. Você não tinha viajado 280 km pra isso.

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Sammy e a Neve

Lido diariamente com animais. Por conta da profissão, algumas poucas palavras bastavam para pedir café ou licença. Mais recente, tive que me aprimorar porque o varredor de rua tornou-se meu interlocutor. Desde então, tenho me esforçado para entender o dialeto confuso dele, calcado em gírias antigas, empregadas na rua em décadas passadas. E isso desde o verão, numa tarde abafada depois de deixar Leroy em casa, quando Sammy me salvou de um seu parceiro determinado a me cobrar pedágio pelo six pack que ia levando pra casa. Acabei deixando uma cerva com Sammy, que agradeceu muitíssimo e me contou da sua mítica Lousiana, onde nasceu em ano esquecido, numa cidade cujo nome não entendi.

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A Manicure Russa e o Gim-Tônica

Pego a linha Q do metrô a caminho de Brighton Beach e salto antes, na avenida U, numa vizinhança cheia de letras e números. Depois me arrependo. O lugar é sem graça, transpira um vazio encardido. Quando resolvo retomar o plano original, um gim-tônica beira-mar, dou com uma fachada suja entre neons, porém dedicada à beleza. Resolvo fazer as unhas.

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Spinning: Fugindo do Monstro com Julia Matos

juliaA melhor aula de spinning que já tive era motivada por música e medo. E aqui é preciso abrir um parênteses machadiano, caro leitor, pois você não tem obrigação de saber do que estou falando. Spinning, de acordo com os bons sites do ramo, é basicamente treino cardiovascular realizado sobre bicicleta estacionária. Parênteses fechado, vamos à musica e ao medo.

Na época dessas minhas melhores aulas de spinning, a professora, sujeita espirituosa, nos fazia acreditar que, se não pedalássemos os bofes pra fora, uma criatura monstruosa nos alcançaria. E nós, acomodados nos selins das bikes da academia, pedalávamos como se disso dependesse nossas vidas.

A autora dessa ficção era uma figura pequena e assertiva. Sua trilha era baseada em som heavy metal, tudo a ver com o visual dela: roupas fitness estrategicamente rasgadas, mezzo marca, mezzo brechó. As partes visíveis do corpo tatuadas, inclusive as laterais raspadas do crânio, divididas por um moicano sedoso e descolorido.

Enquanto  eu fugia do monstro ao som de Metallica, gostava de pensar que o animal de poder da mestra era um pequeno pônei colorido e lisérgico, invocado através de uma droga vegana e 100% natural. Tipo o ar, respirado de acordo com preceitos de antigos monges tibetanos. E lá se iam calorias enquanto a mente alçava um voo à parte, alimentado pela serotonina liberada pelo exercício aeróbio.

Ultimamente senti falta de ser mais ativa e, em lugar de prometer retomar os treinos quando pudesse, resolvi fazer o que estivesse ao alcance. Promessas me deprimem, nesse quesito minha fé é pouca. Se é para o santo fazer milagre, que eu me antecipe: e lá fui eu me adaptar.

Comprei há um tempo um aparelho ótimo pelo MercadoLivre: simples, pequeno, leve. E capaz de transformar bicicletas normais em ergométricas. Um verdadeiro achado. Minha bicicleta agora está acomodada estrategicamente em frente à TV. Em lugar de heavy metal, ouço som disco dos anos 70 orquestrado pela diva Julia Matos, heroína da novela Dancing Days, reprisada todos os dias às 13h30 no canal Viva.  Bem na hora da minha pausa no trabalho. Deixo para almoçar depois das pedaladas. Assim me exercito e não como tanto, porque não dá tempo.

Não é a melhor substituição para o saudoso pequeno pônei, mas foi o que se pode arranjar. Em compensação, agora tenho monstros danados de bons. Basta pensar nas contas e dívidas: em segundos estou nas nuvens com Julia Matos. E queimando calorias com ajuda do combustível sustentável (por mim!) da serotonina.


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