Iraci

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Bartolomeu ia pela mata com uma partida de índios e oito homens contratados. Estava nessa lida, farejando ouro de aluvião, margeando um rio a leste, com a intenção de comerciar os índios em Pirapitingui, quando um dos homens chamou atenção para as pedras no leito do rio. Bartolomeu se ajoelhou à margem, aproveitando para beber água fresca e recebeu um golpe de Martim. Este dividiu o ouro entre os camaradas. Juntos, prosseguiram a viagem. E Bartolomeu ficou ali, padecendo forte odor, servindo à fome dos bichos. Como a noite estivesse próxima, acamparam em uma clareira rio acima, cerca de quatro léguas da sepultura de Bartolomeu. Quando escureceu, Martim se deitou com a índia que vinha usando. Iraci se conformava muito quieta. Não moveu uma palha quando viu a sombra no escuro por trás do ombro de Martim. No último segundo Martim sentiu anhangá por trás de si. E enquanto se dava a briga, Iraci teve oportunidade de fugir. Correu pela mata escura com a velocidade emprestada de anhangá, sem ligar de esfolar o corpo nas folhas cortantes. Iraci, nos seus 12 anos, tinha urgência de continuar vivendo. Assim fez, bebendo dos riachos, comendo a mandioca da terra e os peixes que conseguia agarrar enquanto brincava na água.

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Um dia, viu a cobra grande envindo pro lado de si. Como andasse muito sozinha, deixou. A cobra folgou com Iraci uma tarde inteira. Depois, cansada, foi-se embora, sem ânimo de trincar a menina em seu abraço de morte. Iraci também cansou. O dia terminava e ela deitou nas raízes de um jequitibá, aproveitando a maciez do musgo e das folhas em decomposição. Quando acordou com a manhã já adiantada, demorou a levantar. Mordeu um caju que havia recolhido no dia anterior e sentiu nojo. Então soube que a cobra grande tinha plantado uma semente em seu ventre e que dali viria um filho.

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Salvador

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As cidades têm alma e essa alma acolhe de acordo com vontade própria. Não é fácil ouvi-la, é preciso imaginar, mas não demais. É preciso silêncio, um que realmente transcenda os ruídos e não dependa do cessar de uma britadeira ou uma feira pública. Porque há silêncio numa micareta, num trio elétrico, aí sim é que há o silêncio a que me refiro. Um silêncio que reside além do intervalo entre sons. Um silêncio além da ausência. Salvador.

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ONÇA

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Uma irritação de bicho mouco tomava você conforme o falatório do grupo. Procurava restar quieta, entre os últimos e menos afirmativos, porque adiante estavam os piadistas de padaria. E na retaguarda, se atrasasse demais, vinha Gazela, toda submissão, numa sentinela mais irritante ainda. Até o riacho. O barulhinho d´água quase encoberto pelo vozario. Você se desocupou de ficar brava, curiosa pelo odor que empestava o ar: era onça, garantiu Urubu rei, chefe da tropa. Por certo muitos bichos bebiam ali. Mas o cheiro era de gato safado que marca território em almofada de sofá. Agradava você o fato de onça ser bicho safo, silente. Quando urrava, era com motivo: rival, caça, defesa. E não pra contar piada de padaria. Você não tinha viajado 280 km pra isso.

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Sammy e a Neve

Lido diariamente com animais. Por conta da profissão, algumas poucas palavras bastavam para pedir café ou licença. Mais recente, tive que me aprimorar porque o varredor de rua tornou-se meu interlocutor. Desde então, tenho me esforçado para entender o dialeto confuso dele, calcado em gírias antigas, empregadas na rua em décadas passadas. E isso desde o verão, numa tarde abafada depois de deixar Leroy em casa, quando Sammy me salvou de um seu parceiro determinado a me cobrar pedágio pelo six pack que ia levando pra casa. Acabei deixando uma cerva com Sammy, que agradeceu muitíssimo e me contou da sua mítica Lousiana, onde nasceu em ano esquecido, numa cidade cujo nome não entendi.

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A Manicure Russa e o Gim-Tônica

Pego a linha Q do metrô a caminho de Brighton Beach e salto antes, na avenida U, numa vizinhança cheia de letras e números. Depois me arrependo. O lugar é sem graça, transpira um vazio encardido. Quando resolvo retomar o plano original, um gim-tônica beira-mar, dou com uma fachada suja entre neons, porém dedicada à beleza. Resolvo fazer as unhas.

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Spinning: Fugindo do Monstro com Julia Matos

juliaA melhor aula de spinning que já tive era motivada por música e medo. E aqui é preciso abrir um parênteses machadiano, caro leitor, pois você não tem obrigação de saber do que estou falando. Spinning, de acordo com os bons sites do ramo, é basicamente treino cardiovascular realizado sobre bicicleta estacionária. Parênteses fechado, vamos à musica e ao medo.

Na época dessas minhas melhores aulas de spinning, a professora, sujeita espirituosa, nos fazia acreditar que, se não pedalássemos os bofes pra fora, uma criatura monstruosa nos alcançaria. E nós, acomodados nos selins das bikes da academia, pedalávamos como se disso dependesse nossas vidas.

A autora dessa ficção era uma figura pequena e assertiva. Sua trilha era baseada em som heavy metal, tudo a ver com o visual dela: roupas fitness estrategicamente rasgadas, mezzo marca, mezzo brechó. As partes visíveis do corpo tatuadas, inclusive as laterais raspadas do crânio, divididas por um moicano sedoso e descolorido.

Enquanto  eu fugia do monstro ao som de Metallica, gostava de pensar que o animal de poder da mestra era um pequeno pônei colorido e lisérgico, invocado através de uma droga vegana e 100% natural. Tipo o ar, respirado de acordo com preceitos de antigos monges tibetanos. E lá se iam calorias enquanto a mente alçava um voo à parte, alimentado pela serotonina liberada pelo exercício aeróbio.

Ultimamente senti falta de ser mais ativa e, em lugar de prometer retomar os treinos quando pudesse, resolvi fazer o que estivesse ao alcance. Promessas me deprimem, nesse quesito minha fé é pouca. Se é para o santo fazer milagre, que eu me antecipe: e lá fui eu me adaptar.

Comprei há um tempo um aparelho ótimo pelo MercadoLivre: simples, pequeno, leve. E capaz de transformar bicicletas normais em ergométricas. Um verdadeiro achado. Minha bicicleta agora está acomodada estrategicamente em frente à TV. Em lugar de heavy metal, ouço som disco dos anos 70 orquestrado pela diva Julia Matos, heroína da novela Dancing Days, reprisada todos os dias às 13h30 no canal Viva.  Bem na hora da minha pausa no trabalho. Deixo para almoçar depois das pedaladas. Assim me exercito e não como tanto, porque não dá tempo.

Não é a melhor substituição para o saudoso pequeno pônei, mas foi o que se pode arranjar. Em compensação, agora tenho monstros danados de bons. Basta pensar nas contas e dívidas: em segundos estou nas nuvens com Julia Matos. E queimando calorias com ajuda do combustível sustentável (por mim!) da serotonina.

Jardim

Helicônias:  na espécie que tenho as flores pendem.

Helicônias: a espécie aqui de casa tem flores pendentes.

Há uns seis anos fiquei com vontade de fazer um jardim. E o jardim se fez no quintal de casa, veio surgindo aos poucos, conforme as providências: murar canteiros, telar pra proteger dos cachorros, enriquecer a terra com adubo. Aprendi muito nesse movimento. Meu cotidiano cercado de limo ganhou novos significados de criação e beleza. Agradecida, ia já soprando o título: “A Importância de Ter um Jardim”, quando dei conta de que é o jardim que me tem. O que fiz foi dar um jeito de estar contida nele.

Para tanto, foi necessário conjurar o jardim no entorno, de forma a ser parte dele, o que não se faz com uma facilidade de Harry Potter. Tem que arregaçar as mangas, coisa que obriga o  urbanóide a vibrar numa frequência que não a dos sofás contemplativos. Daí, nascem bolhas nas mãos, dores nas costas, atraímos bichos estranhos e a natureza esfrega na nossa cara que coelhinhos felpudos existem no universo Disney.

Toda vez que misturo o conteúdo da composteira – a “podridão controlada” – lembro de um sonho que tive há muitos anos e que praticamente era um ritual de passagem. Um cataclisma acontecia ao som de uma voz que me situava: “Você foi feita de folhas e de flores….”.   Não lembro muito mais. No entanto, sei que se tratava de um momento de transformação, uma mudança de estado.

Por isso não tenho asco da decomposição das nossas cascas de banana – trata-se de mudança, evolução e acontece com tudo que está vivo. Sinto na ponta da pá o caldo espesso estalando vida e a possibilidade de interagir: muita secura requer água respingada, não muita. Já excesso de umidade indica falta de oxigênio e é garantia de mau cheiro. Para tanto, nada melhor que serragem. Precisa mexer com a pá e aerar. Daí aquilo tudo vira terra. Não é bem terra, é adubo. Mas tem aparência e consistência de terra – mesmo porque grande parte do meu descarte é pó de café, que se parece com terra. E vai ver, é.

As plantas se alimentam dessa matéria orgânica e de água. Ao fornecermos os dois elas entusiasmam. E como desabrocham e crescem! Quando comecei a compostagem, em dois tempos as heliconias tomaram o espaço do varal e submergiram o fundo do quintal em sombras, roubando o sol de minhas roupas e de outras plantas menores, que começaram a definhar. Enquanto isso, ramos de primavera penetraram a casa por arestas no telhado. Uma noite, olhei o alto e me senti uma bela adormecida, num castelo lacrado de espinheiros.

Primavera é fogo! Tenho um amigo que, com dó do jardineiro, mandou cortar as suas. Há duas no  jardim.  Ambas, se tiverem a chance, entram em casa. Não posso com elas – no máximo aproveito pra fazer estacas de seus ramos cortados pelo jardineiro a cada três meses. Nesse serviço, ele usa luvas até os cotovelos e eu descasco com cuidado os espinhos dos ramos antes de armazená-los.

Sim, é preciso podar. Nem demais, nem de menos. Na época certa, do jeito certo. Esse capítulo, aprendi perguntando – pro Google, pra uma senhora que cresceu na roça , pra hortelã urbana que fundou uma horta comunitária na praça. Também aprendi vendo, o que foi muito divertido, um vizinho “mãos de tesoura” podar uma primavera em formato de poodle. De tudo, descobri que a poda requer ciência e intuição. Ainda estou aprendendo, mas já uso os dois.

Se deus descansou no sétimo dia, nós mortais passamos longe disso. Essa respiração constante esta aqui no jardim.


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